Tá, antes de tudo, “desculpaí” o sumiço, mas a minha enxaqueca resolveu não me deixar trabalhar nos últimos dias. Mas enfim, naquele famigerada enquete do início do mês (podem continuar respondendo, se quiserem) alguns de vocês pediram pra que eu voltasse com as dicas de livro. Na verdade, eu nem tinha pensado em parar com a tag, mas como eu tinha uns 6 livros pela metade e nenhum lido até o fim pra falar pra vocês, a pobre tag ficou jogada um tempo.
Mas agora que eu resolvi ser um ser humano organizado e tirar um tempinho todo dia pra ler, acho que vai ficar melhor, né?
O livro da semana foi “A Mulher Que Não Prestava”, da Tati Bernardi. Acho que muitos de vocês conhecem alguns textos dela, que vivem circulando pela internet e que são muito bacanas. Esse livro é uma seleção de vários deles, alguns engraçados, alguns românticos e até uns meio trágicos.
Vou nem falar que rolou uma identificação total no quesito ” sou mau humorada mesmo e você que se vire com isso”, mas enfim… catei um texto aleatório pra colocar aqui:
“Estou de férias há duas semanas. E agora, em reta final de terminar meu intencionado descanso, estou em João Pessoa, na Paraíba. Vim sozinha com o intuito de mergulhar em mim e entrar em contato com o meu eu mais profundo. Os dias têm sido cheios de um mar verde-água, sol e novos amigos bacanas.
Ahhhhhh férias, que momento mágico, não? Não. Passo cada segundo dos meus dias fazendo as contas de quanto tempo ainda falta para eu chutar a porta do meu apartamento em Perdizes, dar toda a roupa suja para a Maria lavar, tomar um banho de duas horas no meu chuveiro com a melhor ducha do mundo, me enfiar num pijama mais fechadinho porque em São Paulo não faz tanto calor e dormir no meu, meeeeeeeu, edredon antialérgico laranja (segundo a cromoterapia a cor laranja faz dormir melhor).
Eu até seria menos infeliz se achasse que todo mundo é louco assim, mas o pior é que, de verdade, eu acho que está todo mundo se divertindo.
Eu queria de verdade entender qual exatamente é o meu problema com a falta de problema. Me dá um mau humor incrível pensar que eu não tenho nada pra pensar pelas próximas horas de deslumbramentos e preguiças.
Calor me dá uma moleza chata que me transforma numa corcunda de cara apática e olhos quase sofredores, insetos me enlouquecem e pequeninos grãos de areia perdidos no lençol no meio da noite tiram meu sono.
Com todo esse calor os hotéis e pousadas ainda vêm com aquele papo de “salve os oceanos, tome menos banho, economize toalhas”, não dá, preciso de uns três banhos por dia porque tenho pavor de ficar muito tempo salgada ou à milanesa. Fora a minha neura por suvaco, preciso ter certeza absoluta de que não estou com cheiro de ser humano.
Sim, sim, sou a típica urbaninha neurótica estressada que não entra no clima.
Mas sabe o que é? Meu problema é gente.
Explico.
Ontem acordei e fui fazer uma longa caminhada pelas praias de João Pessoa, passei por verdadeiros infernos cheios de quiosques-bar com axé e funk no último volume e um monte de gente loira, com berebas de calor e picadas de inseto, querendo ter gingado nordestino. Quase vomitei, desmaiei ou metralhei todo mundo. Isso é entrar no clima? Então prefiro minha casa.
Andei, andei, até que encontrei um pedacinho vazio de praia, com o mar calmo que nem piscina, morninho, e uma vista para um lago, fiquei horas ali e quase chorei de emoção, confesso que entrei no clima e finalmente curti minhas férias.
O que não dá para agüentar é esse deslumbre com o verão, as pessoas falando tudo abreviado porque muito sol na cabeça interrompe pensamentos, esses hits de verão berrando no seu ouvido em qualquer canto que você esteja, e a multidão, não suporto a multidão. Não suporto esse fenômeno “barata que sai de baixo do móvel”, as estradas cheias, as tarifas altas, os tios barrigudos falando alto na praia, as poses de ladinho para fotos nos coqueiros tortos, as meninas ripongas com seus namorados surfistas tentando filosofar a respeito do quanto eles amam muito tudo isso mais do que amam o Mc Donald’s. Cara, gente é um saco.
Poderia até achar que tirei férias na hora errada mas a verdade é que a errada sou eu. Sim, certeza, meu namorado acabou de olhar para a bunda daquela infeliz com uma tatuagem de Shiva no culote, aliás, algo me diz que é a décima oitava bunda que ele comtempla por cima dos seus óculos escuro enquanto finge ler.
E por falar em ler, ele está com esse livro que ensina como andar e meditar pelo sétimo verão consecutivo, claro, é outro título, mas o livro continua o mesmo, o desgraçado não lê outra coisa, não tem outro assunto.
Quer saber? Não tô mais achando legal esses cachorros na praia, isso não traz doença? Como eu queria agora poder reclamar que já pedi o prato há mais de uma hora e ser atendida por um gerente simpático que não fala mole, como eu queria agora fazer uma hidratação e uma escova neste meu cabelo, colocar um belo decote, um sapato bacana e mostrar para essas sonsas maconheiras com tatuagem de Shiva no culote quem é que manda no quesito charme, quem é que arrasa quando a passarela é outra. Quem é que pára ruas quando o assunto é assunto.
Sou urbana, claro, adoro um cinema com filme europeu, um restaurante com jazz ao fundo, uma festa fechada só para amigos muito interessantes e cheios de manias. Ainda meio dormindo escuto o comandante dizer “tripulação, preparar para o pouso” e meu coração se enche de alegria e paz, de volta a São Paulo, de volta à minha cama que só tem o meu cheirinho, de volta à comidinha da mamãe que nunca me deu dor de barriga, de volta à segurança de saber que, se eu precisar de um carro, de um amigo, de um bom filme ou de um médico, sei exatamente onde encontrar.
Chega de insetos, chega de areia, chega de roupas amassadas dentro da mala. A Marginal está completamente parada, a primeira visão da cidade é uma favela e um céu cinza. Milhares de caminhões na minha frente me tiram qualquer visão do horizonte.
Que saudade do axé do Nordeste.
Recomendo fortemente.
A Mulher Que Não Prestava
Tati Bernardi
Ano de Lançamento: 2006
Número de páginas: 148







