A Manhã Seguinte Sempre Chega – Dica de Livro


Depois de um tempo com vários livros lidos ao pedaços (eu leio, começo outro, compro outro, e quando vejo tem seis pela metade) mais um foi lido inteirinho e já dá pra dar uma opinião aqui pra vocês: A Manhã Seguinte Sempre Chega, do Gabito Nunes.

Pra quem já tá mais por dentro, sabe que esse livro é uma coletânea de textos do blog dele, que eu já leio faz um bom tempo, e se você não conhece, pode começar a ler aqui.

Sabe aquelas coisas que quando você começa uma relação, tá feliz com ela ou vai tudo pro buraco, você pensa, mas nem sempre fala? Pois é, os textos são assim, e de vez em quando eu me pegava fazendo “ahans” pras coisas que lia, naquela sensação de “já vi essa cena“.

O livro é dividido em partes:

  • O namoro: quando se tem alguém pra amar
  • A rotina: quando a relação entra em declínio
  • O fim: quando tomamos um pé na bunda
  • A sofreguidão: quando vêm as crises de abstinência
  • O limbo: quando ninguém parece ter graça
  • A neura: quando questionamos tudo
  • A fuga: quando trombamos no medo de amar
  • A divergência: quando vêm os desencontros
  • A procura: quando voltamos ao mercado
  • O arrebate: quando nos apaixonamos de novo
  • O amor: quando novamente encontramos

“Você empresta livros, discos, casacos pra criar vínculos subliminares.”

O livro é muito bacana, assim como o blog. Já entrou pro lado “muito amor” da minha estante.

A Manhã Seguinte Sempre Chega

Gabito Nunes

Altura: 23 cm.

Largura: 16 cm.

Profundidade: 1 cm.

Idioma : Português

Número de Paginas : 240

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Dica de livro: Um Dia – David Nicholls

Depois de “Marley e Eu”, eu achei que nunca mais ia precisar parar a leitura de alguma coisa pra pegar uma caixinha de lenço, mas aí, “Um Dia” apareceu.

Dexter e Emma passam a noite de formatura juntos, se tornam amigos, e a gente fica sabendo onde eles estão todo dia 15 de Julho durante vinte anos. Algumas vezes juntos, algumas vezes não, às vezes bem, outras nem tanto. O livro mostra as mudanças naturais que ocorrem na vida desses dois, tentando se encontrar na vida, achar algo importante pra fazer, construir relações e ainda sim dependendo muitas vezes um do outro.

O livro é tão amor que já virou filme, mas falarei dele depois com mais calma. Eis um pedaço do primeiro capítulo:

“— Acho que o importante é fazer diferença — disse ela. — Mudar alguma coisa, sabe?

— Você está falando de “mudar o mundo”?

— Não o mundo inteiro. Só um pouquinho ao nosso redor.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, os corpos entrelaçados na cama de solteiro, depois começaram a rir em voz baixa, na mesma altura do amanhecer.

— Nem acredito que eu disse isso — murmurou ela. — Um pouco batido, não é?

— É, um pouco batido.

— Estou tentando servir de inspiração. Preparar sua alma negra para a grande aventura à sua frente. — Virou-se e olhou para ele. — Não que você precise disso. Imagino que já esteja com o futuro bem-planejado, muito bem-planejado. Deve ter até um fluxograma ou coisa assim guardado em algum lugar.

— Até parece.

— Então, o que você vai fazer? Qual é o seu grande plano?

— Bom, meus pais vão guardar minhas coisas na casa deles, depois vou passar uns dias no apartamento de Londres, ver alguns amigos. Depois França…

— Muito legal…

— Depois talvez China, ver o que acontece por lá, quem sabe ir até a Índia, viajar um pouco pelo país…

— Viajar — ela suspirou. — Tão previsível.

— O que há de errado em viajar?

— É mais uma forma de fugir da realidade.

— Eu acho que a realidade é algo muito superestimado — contestou, esperando que a frase soasse cínica e carismática.

Ela fungou.

— É, imagino que sim, para quem pode pagar. Mas por que não dizer simplesmente: “Vou tirar umas férias de dois anos”? É a mesma coisa.

— Porque viajar amplia os horizontes — respondeu ele, apoiando-se sobre um cotovelo e dando um beijo nela.

— Ah, acho que os seus horizontes já estão bem ampliados — comentou ela, virando a cabeça para o outro lado, ao menos naquele momento.

Os dois se ajeitaram outra vez no travesseiro.

— De qualquer forma, eu não estava falando do que você vai fazer no mês que vem, estava falando do futuro mesmo, sei lá… — Fez uma pausa, como se vislumbrasse uma ideia fantástica, uma quinta dimensão. — Quando você tiver uns quarenta anos. O que você quer ser quando tiver quarenta anos?

— Quarenta? — Ele pareceu se debater com aquele conceito. — Não sei. Será que posso responder “rico”?

— Mas isso é tão superficial.

— Está certo. Então, “famoso”. — Começou a esfregar o nariz no pescoço dela. — Um pouco mórbido tudo isso, não?

— Não é mórbido, é… fascinante.

— Fascinante! — Agora ele imitava a voz dela, seu leve sotaque de Yorkshire, fazendo-a parecer bobinha. Isso sempre acontecia com ela, garotos bacanas falando com voz engraçada, como se um sotaque fosse algo estranho e incomum, e não pela primeira vez sentiu um estremecimento de aversão em relação a ele que a tranquilizou. Afastou-se até apoiar as costas na parede fria.

— Sim, fascinante. E não é para menos, é? Com todas essas possibilidades. Como disse o diretor, “as portas da oportunidade se abriram…”.

— “Os seus nomes estarão nos jornais de amanhã…”

— Isso é pouco provável.

— Então por que você está tão empolgada?

— Empolgada? Eu estou morrendo de medo.

— Eu também. Saco… — Virou-se de repente e pegou o maço de cigarros no chão ao lado da cama, como para acalmar os nervos. — Quarenta anos de idade. Quarenta anos. Puta inferno.

Achando graça na aflição dele, ela resolveu piorar um pouco mais o cenário.

— Então, o que você vai estar fazendo quando tiver quarenta anos?

Ele acendeu o cigarro, pensativo.

— Bom, Em, o negócio é…

— “Em”? Quem é “Em”?

— Todo mundo chama você de Em. Eu ouvi.

— É, os meus amigos me chamam de Em.

— Então, posso te chamar de Em?

— Vai nessa, Dex.

— Bom, eu já andei pensando nessa história de “fi car velho” e decidi
que vou continuar exatamente como sou no momento.

Dexter Mayhew. Ela o observou por entre a franja, recostado na cabeceira acolchoada da cama barata, e, mesmo sem óculos, entendeu muito bem por que ele queria continuar exatamente daquele jeito. Olhos fechados, o cigarro colado languidamente no lábio inferior, a luz da manhã filtrada pelo tom avermelhado das cortinas aquecendo um lado do rosto, ele parecia estar sempre posando para uma fotografia. Emma Morley considerava “bonitão” um termo banal, do século XIX, mas na verdade não havia outra palavra que o descrevesse, a não ser talvez “lindo”. O rosto era daqueles em que você enxerga os ossos por baixo da pele, como se até a caveira fosse bonita. Um nariz afilado brilhava um pouco com a oleosidade, olheiras tão carregadas que pareciam hematomas, medalhas de honra por todos os cigarros e noites em claro perdendo deliberadamente para colegiais de Bedales no strip poker. Havia algo de felino em suas feições: sobrancelhas fi nas, a boca intencionalmente amuada, lábios um tanto sombrios e grossos, mas agora secos e rachados, arroxeados pelo vinho tinto búlgaro.

Ainda bem que o cabelo era horrível, curto na nuca e nos lados, com um topetinho ridículo na frente. Fosse qual fosse o gel que usava, já tinha perdido o efeito e agora o topete parecia fofo e atrevido, como um chapeuzinho idiota. Ainda com os olhos fechados, ele exalou a fumaça pelo nariz. Sabia muito bem que estava sendo observado, porque enfi ou a mão debaixo da axila, infl ando os bíceps e os peitorais. De onde vinham aqueles músculos? Por certo de nenhuma atividade esportiva, a não ser que nadar nu ou jogar sinuca fossem considerados esporte. Provavelmente era a boa saúde herdada da família, junto com as ações, participações nos lucros e móveis fi nos. Então ele era bonitão, lindo até, com uma cueca samba-canção estampada na altura dos ossos do quadril, e por alguma razão estava ali em sua cama de solteira naquele pequeno quarto alugado ao término de quatro anos de faculdade. “Bonitão”! Quem você pensa que é? Jane Eyre? Hora de crescer. Seja razoável. Não se deixe iludir.

Emma tirou o cigarro dos lábios dele.

— Eu posso imaginar como você vai ser aos quarenta anos — falou, um tom de malícia na voz. — Sei muito bem o que vai acontecer.

Dexter sorriu sem abrir os olhos.

— Então, diga.

— Tudo bem… — Ela se mexeu na cama, o edredom preso nas axilas.

— Você vai estar num carro esporte com a capota arriada em Kensington ou Chelsea, num desses lugares, e o mais incrível nesse carro é o fato de ser silencioso, porque todos os carros vão ser silenciosos em… sei lá quando… 2006?

Ele apertou os olhos, fazendo a conta.

— 2004…

— E o carro está na King’s Road a dez centímetros do chão, sua barriguinha está espremida embaixo do volante de couro como uma almofadinha e você está com aquelas luvas sem dedos, já com cabelo rareando e sem queixo. Você é um homem grandão num carro pequeno, com um bronzeado de peru assado…

— Vamos mudar de assunto?

— E tem uma mulher ao seu lado, de óculos escuros, sua terceira… não, quarta esposa, muito bonita, modelo… não, ex-modelo, vinte e três anos, que você conheceu enquanto ela posava no capô de um carro num salão do automóvel em Nice ou coisa assim, muito bonita e burra como uma porta…

— Bom, isso é legal. Algum filho?

— Não, sem filhos, só três divórcios. É uma sexta-feira de julho, vocês estão a caminho de uma casa de campo e no minúsculo porta-malas do seu carro voador tem raquetes de tênis, tacos de críquete e um cesto cheio de vinhos e uvas sul-africanas, aspargos e umas pobres codornas. O vento bate no seu para-brisa e você se sente bem, muito bem consigo mesmo, e a esposa número três, ou quatro, sei lá, sorri para você com duzentos dentes brancos e brilhantes, e você sorri de volta e tenta não pensar no fato de vocês dois não terem nada, absolutamente nada, a dizer um ao outro.

Emma parou de repente. “Você está falando como uma doida”, disse para si mesma. “Tente não falar como uma doida.”

— Se serve de consolo, é claro que todos já teremos morrido numa guerra nuclear bem antes disso! — observou com leveza, mas ele continuou com o cenho franzido.

— Então acho melhor eu ir embora. Já que sou tão superfi cial e depravado…

— Não. Não vai, não — ela pediu, talvez um pouco ansiosa demais.

— São quatro da manhã. Ele se ajeitou na cama até fi car com o rosto a poucos centímetros do dela.

— Não sei de onde você tirou essa ideia a meu respeito, você mal me conhece.

— Eu conheço o seu tipo.

— Meu tipo?

— Eu já vi você com a sua turma depois das aulas de literatura moderna, gritando uns com os outros, organizando festas black-tie…

— Eu nem tenho um smoking. E muito menos sou de gritar…

— Passeando de iate no Mediterrâneo em feriados prolongados, rá, rá, rá…

— Então, se eu sou assim tão canalha… — Agora a mão dele estava no quadril dela.

— E é mesmo.

— …por que você está dormindo comigo? — A mão alojou-se na pele quente e macia da coxa.

— Na verdade acho que eu não dormi com você, dormi?

— Bem, isso depende. — Inclinou-se e beijou-a. — Defi na os seus termos. — A mão tateava a base da coluna, uma perna enfiada entre as pernas dela.

— A propósito — murmurou ela, a boca colada na dele.

— O quê? — Sentiu a perna dela enlaçar a sua e puxá-lo mais para perto.

— Você precisa escovar os dentes.

— Eu não ligo se você não escovar.

— Mas está horrível — ela riu. — Sua boca está com gosto de vinho e cigarro.

— Tudo bem. A sua também está. A cabeça dela se afastou num tranco, interrompendo o beijo.

— É mesmo?

— Eu não ligo. Eu gosto de vinho e de cigarro.

— Só um segundo. — Ela empurrou o edredom, passando por cima dele.

— Aonde você vai? — Encostou a mão nas costas nuas que se afastavam.

— Só vou até o trono — respondeu, pegando os óculos de cima da pilha de livros ao lado da cama: óculos grandes, armação preta, modelo comum.

— “Trono”, “trono”… Desculpe, não sei do que se trata… Emma se levantou com um braço atravessado sobre o peito, tomando o cuidado de fi car de costas para ele.

— Não vá embora — falou enquanto se afastava, enganchando dois dedos no elástico para ajeitar a calcinha no alto das coxas. — E não vale se masturbar enquanto eu estiver fora.

Dexter expirou pelo nariz e se ajeitou na cama, examinando o mal–ajambrado quarto que ela aluga, sabendo com absoluta certeza que em algum lugar entre aqueles cartões-postais de arte e cartazes de peças de teatro alternativo haveria uma fotografia do Nelson Mandela, como uma es pécie de namorado ideal que só existe no mundo dos sonhos. Já tinha visto muitos quartos como aquele nesses últimos quatro anos, espalhados pela cidade como a cena de um crime, quartos onde nunca se estava a mais de dois metros de um disco da Nina Simone. Embora raramente tivesse visitado duas vezes o mesmo quarto, tudo era muito familiar. Os velhos abajures e os vasos de plantas desolados, o cheiro de sabão em pó em lençóis baratos que mal cabiam nas camas. Ela também tinha aquela paixão artística por fotomontagens, tão comum nas garotas: fotos de colegas da faculdade e da família misturando-se com desenhos de Chagall, Vermeer e Kandinsky, os Che Guevaras, os Woody Allens e os Samuel Becketts. Nada era neutro, tudo afi rmava um ponto de vista. O quarto era um manifesto, e com um suspiro Dexter identificou-a como uma daquelas garotas que usavam “burguês” como um termo ofensivo. Ele entendia que “fascista” pudesse ter conotações negativas, mas gostava da palavra “burguês” e de tudo que tal termo implicava. Segurança, viagens, boa comida, boas maneiras, ambição; por que deveria se sentir culpado por isso?

Observou as nuvens de fumaça saindo da própria boca. Tateando em busca de um cinzeiro, encontrou um livro ao lado da cama. A insustentável leveza do ser, com a lombada bem vincada nas partes “eróticas”. O problema dessas garotas rebeldes e individualistas é que todas eram exatamente iguais. Outro livro: O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. “Que imbecil”, pensou, certo de que jamais cometeria aquele erro.

Com vinte e três anos, a visão que Dexter Mayhew tinha do próprio futuro não era mais nítida que a de Emma Morley. Queria ser bem-sucedido, que os pais se orgulhassem dele e que tivesse a oportunidade de dormir com mais de uma mulher ao mesmo tempo, mas como tornar todas essas coisas compatíveis? Queria ser citado em revistas e esperava um dia ver uma retrospectiva do seu trabalho, sem ter uma clara noção do que seria esse trabalho. Queria aproveitar a vida ao máximo, mas sem confusões nem complicações. Queria viver de forma que, se fosse fotografado casualmente, a foto saísse bonita. As coisas deveriam estar certas. Diversão; devia haver bastante diversão e pouca tristeza, não mais que o absolutamente necessário.

Não era um grande plano, e já tinha havido alguns tropeços. Esta noite, por exemplo, poderia ter repercussões: lágrimas, telefonemas desagradáveis e acusações. Talvez o melhor fosse ir embora o quanto antes. Olhou para as roupas jogadas ao lado, preparando-se para uma fuga. Foi alertado por um solavanco e o estampido de uma antiga descarga vindos do banheiro e logo recolocou o livro no lugar, encontrando embaixo da cama uma latinha amarela de mostarda Colman’s, que abriu e confirmou que, sim, continha camisinhas e pequenos restos acinzentados de um baseado que pareciam fezes de rato. Com a possibilidade de sexo e drogas que aquela pequena lata amarela continha fi cou mais animado, e afi nal decidiu que poderia fi car um pouco mais.”

Recomendo com força, mas não esqueçam a caixinha de lenço. ;)

“UM DIA”
Autor: David Nicholls
Editora: Intríseca
Páginas: 416

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Dica de Livro: Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é

A dica dessa semana é de um livro bem curtinho, pra quem se assustou com o tamanho da literatura mulherzinha da semana passada, mas ainda melhor: “Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é”, da Tati Bernardi.

Eu sou meio suspeita porque crônicas são o que eu mais gosto de ler e os textos da Tati estão entre os meus preferidos, mas o livro é bem bacana. Olha aí a “definição” dele:

Uma das coisas que eu gosto nos textos é que eu acabo me identificando com 90% deles. Vira e mexe eu me pego fazendo “ahan!” mentalmente enquanto leio.

O livro é curto, rapidinho de ler e super bacana. Recomendo.

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Dica de Livro: Qual Seu Número?

Voltando um pouco pros livros “Mulherzinha” (tô terminando mais um do Dexter, aguardem), hoje a dica é de um livro que eu comprei sem muitas expectativas (comprei porque agora tem o filme dele e eu quero ver) e acabou sendo uma surpresa bem bacana: Qual Seu Número, da Karyn Bosnak. Deem uma olhada na sinopse:

O livro é tipo de literatura mulherzinha pra você sentar na cadeira de praia e rir das trapalhadas alheias, sabe? É escrito como um diário, onde Delilah conta todos os passos da ideia maluca de ir atrás de todos os ex-namorados da vida dela pra ver se não deixou o grande amor passar, mas só encontra caras ainda mais estranhos e cheios de manias do que eram na época em que saíam com ela.

Se você quer um livro leve (não se assustem com as 400 e tantas páginas, eu juro que não é cansativo) pra ler agora nas férias, eu recomendo.

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Dica de Livro: Mulheres Alteradas #3

Eu sei que ando meio relapsa nos últimos dias, mas Dezembro é sempre uma correria, né? Enfim, depois de um bom tempinho, voltamos com a dica de livro (não é que eu não ande lendo, muito pelo contrário, mas é tanta coisa que eu não sei o que postar primeiro).

O livro em questão é “Mulheres Alteradas”, da ilustradora argentina Maitena Burundarena. O livro é todo de tirinhas (Mafalda feelings) e cada página é uma historia diferente sobre o louco mundo feminino. As tirinhas são muito bem feitas e eu duvido que a mulherada leia e não pense “hey, essa maluca sou eu”.

O livro é tão leve, tão bom de ler, que eu acabei de uma vez só. Até peguei algumas tirinhas pra vocês verem:


Ps: Amiga @morganalouise, brigada pelo presente! ;)

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Dica de livro #3

Tá, antes de tudo, “desculpaí” o sumiço, mas a minha enxaqueca resolveu não me deixar trabalhar nos últimos dias. Mas enfim, naquele famigerada enquete do início do mês (podem continuar respondendo, se quiserem) alguns de vocês pediram pra que eu voltasse com as dicas de livro. Na verdade, eu nem tinha pensado em parar com a tag, mas como eu tinha uns 6 livros pela metade e nenhum lido até o fim pra falar pra vocês, a pobre tag ficou jogada um tempo.

Mas agora que eu resolvi ser um ser humano organizado e tirar um tempinho todo dia pra ler, acho que vai ficar melhor, né?

O livro da semana foi “A Mulher Que Não Prestava”, da Tati Bernardi. Acho que muitos de vocês conhecem alguns textos dela, que vivem circulando pela internet e que são muito bacanas. Esse livro é uma seleção de vários deles, alguns engraçados, alguns românticos e até uns meio trágicos.

Vou nem falar que rolou uma identificação total no quesito ” sou mau humorada mesmo e você que se vire com isso”, mas enfim… catei um texto aleatório pra colocar aqui:

“Estou de férias há duas semanas. E agora, em reta final de terminar meu intencionado descanso, estou em João Pessoa, na Paraíba. Vim sozinha com o intuito de mergulhar em mim e entrar em contato com o meu eu mais profundo. Os dias têm sido cheios de um mar verde-água, sol e novos amigos bacanas.
Ahhhhhh férias, que momento mágico, não? Não. Passo cada segundo dos meus dias fazendo as contas de quanto tempo ainda falta para eu chutar a porta do meu apartamento em Perdizes, dar toda a roupa suja para a Maria lavar, tomar um banho de duas horas no meu chuveiro com a melhor ducha do mundo, me enfiar num pijama mais fechadinho porque em São Paulo não faz tanto calor e dormir no meu, meeeeeeeu, edredon antialérgico laranja (segundo a cromoterapia a cor laranja faz dormir melhor).
Eu até seria menos infeliz se achasse que todo mundo é louco assim, mas o pior é que, de verdade, eu acho que está todo mundo se divertindo.
Eu queria de verdade entender qual exatamente é o meu problema com a falta de problema. Me dá um mau humor incrível pensar que eu não tenho nada pra pensar pelas próximas horas de deslumbramentos e preguiças.
Calor me dá uma moleza chata que me transforma numa corcunda de cara apática e olhos quase sofredores, insetos me enlouquecem e pequeninos grãos de areia perdidos no lençol no meio da noite tiram meu sono.
Com todo esse calor os hotéis e pousadas ainda vêm com aquele papo de “salve os oceanos, tome menos banho, economize toalhas”, não dá, preciso de uns três banhos por dia porque tenho pavor de ficar muito tempo salgada ou à milanesa. Fora a minha neura por suvaco, preciso ter certeza absoluta de que não estou com cheiro de ser humano.
Sim, sim, sou a típica urbaninha neurótica estressada que não entra no clima.
Mas sabe o que é? Meu problema é gente.
Explico.
Ontem acordei e fui fazer uma longa caminhada pelas praias de João Pessoa, passei por verdadeiros infernos cheios de quiosques-bar com axé e funk no último volume e um monte de gente loira, com berebas de calor e picadas de inseto, querendo ter gingado nordestino. Quase vomitei, desmaiei ou metralhei todo mundo. Isso é entrar no clima? Então prefiro minha casa.
Andei, andei, até que encontrei um pedacinho vazio de praia, com o mar calmo que nem piscina, morninho, e uma vista para um lago, fiquei horas ali e quase chorei de emoção, confesso que entrei no clima e finalmente curti minhas férias.
O que não dá para agüentar é esse deslumbre com o verão, as pessoas falando tudo abreviado porque muito sol na cabeça interrompe pensamentos, esses hits de verão berrando no seu ouvido em qualquer canto que você esteja, e a multidão, não suporto a multidão. Não suporto esse fenômeno “barata que sai de baixo do móvel”, as estradas cheias, as tarifas altas, os tios barrigudos falando alto na praia, as poses de ladinho para fotos nos coqueiros tortos, as meninas ripongas com seus namorados surfistas tentando filosofar a respeito do quanto eles amam muito tudo isso mais do que amam o Mc Donald’s. Cara, gente é um saco.
Poderia até achar que tirei férias na hora errada mas a verdade é que a errada sou eu. Sim, certeza, meu namorado acabou de olhar para a bunda daquela infeliz com uma tatuagem de Shiva no culote, aliás, algo me diz que é a décima oitava bunda que ele comtempla por cima dos seus óculos escuro enquanto finge ler.
E por falar em ler, ele está com esse livro que ensina como andar e meditar pelo sétimo verão consecutivo, claro, é outro título, mas o livro continua o mesmo, o desgraçado não lê outra coisa, não tem outro assunto.
Quer saber? Não tô mais achando legal esses cachorros na praia, isso não traz doença? Como eu queria agora poder reclamar que já pedi o prato há mais de uma hora e ser atendida por um gerente simpático que não fala mole, como eu queria agora fazer uma hidratação e uma escova neste meu cabelo, colocar um belo decote, um sapato bacana e mostrar para essas sonsas maconheiras com tatuagem de Shiva no culote quem é que manda no quesito charme, quem é que arrasa quando a passarela é outra. Quem é que pára ruas quando o assunto é assunto.
Sou urbana, claro, adoro um cinema com filme europeu, um restaurante com jazz ao fundo, uma festa fechada só para amigos muito interessantes e cheios de manias. Ainda meio dormindo escuto o comandante dizer “tripulação, preparar para o pouso” e meu coração se enche de alegria e paz, de volta a São Paulo, de volta à minha cama que só tem o meu cheirinho, de volta à comidinha da mamãe que nunca me deu dor de barriga, de volta à segurança de saber que, se eu precisar de um carro, de um amigo, de um bom filme ou de um médico, sei exatamente onde encontrar.
Chega de insetos, chega de areia, chega de roupas amassadas dentro da mala. A Marginal está completamente parada, a primeira visão da cidade é uma favela e um céu cinza. Milhares de caminhões na minha frente me tiram qualquer visão do horizonte.
Que saudade do axé do Nordeste.

Recomendo fortemente.

A Mulher Que Não Prestava
Tati Bernardi
Ano de Lançamento: 2006
Número de páginas: 148

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